Ecos de Duplicatas : O Peso da Verdade
Nota da autora: Para fins de desenvolvimento psicológico desta trama, tomei a liberdade de fundir alguns eventos da 5ª e 6ª temporadas. O objetivo é explorar as consequências emocionais do comportamento da Elena frente aos conflitos de memória e visões, tratando-os como um contínuo de escolhas e não apenas como efeitos colaterais mágicos isolados
## Capítulo 2: O Peso da Verdade
O som da porta de carvalho batendo ainda ecoava pelas paredes de pedra da mansão, mas o silêncio que se instalou na sala era muito mais ensurdecedor. Ninguém se movia.
Damon se levantou devagar, limpando a poeira da jaqueta de couro no lugar onde o impacto da telecinese o havia atingido. Ele não fez nenhuma piada. O habitual brilho sarcástico em seus olhos azuis havia sido substituído por uma frieza cortante. Ele caminhou até o bar, pegou a garrafa de bourbon e virou o líquido direto na boca, sem usar copo.
Elena continuava parada no mesmo lugar, estática, com as mãos trêmulas e o rosto completamente pálido.
— Damon... Stefan... — a voz de Elena saiu em um sussurro falho, os olhos castanhos marejados, implorando por socorro. — Aquela garota... ela está mentindo. Ela é filha da Katherine, o que vocês esperavam? Ela veio aqui para nos destruir, para nos separar!
Stefan, que até então mantinha os braços cruzados olhando para o chão, finalmente ergueu a cabeça. Seu rosto era uma máscara de cansaço e decepção. Ele não correu para abraçar Elena. Ele sequer deu um passo na direção dela.
— Ela pode ser filha da Katherine, Elena — Stefan disse, a voz assustadoramente calma. — Mas as coisas que ela disse... ela não inventou isso. O beijo que você deu no Damon no leito de morte dele... eu estava me sacrificando com o Klaus para salvar a vida de vocês dois, e vocês estavam se pegando no quarto.
— Stefan, o Damon estava morrendo! — Elena tentou se defender, desesperada. — Foi um beijo de despedida, por compaixão!
— E o tour romântico na floresta quando eu estava sem memória? Também foi por compaixão? — Stefan rebateu, e pela primeira vez, houve um tom de amargura real em sua voz. — Você me levou para a escola, para o cemitério, para a floresta reviveu tudo o que a gente viveu. Você me seduziu, Elena. E quando eu fui te beijar, você usou o nome do Damon como um escudo para sair como a santinha fiel. A Talia tem razão. Você não queria me ajudar a recuperar a memória, você queria testar se ainda tinha poder sobre mim, mesmo eu não lembrando quem você era.
Damon soltou uma risada seca do canto da sala, batendo a garrafa de vidro contra o balcão.
— Sabe o que é o pior, Stefan? — Damon cortou, os olhos fixos em Elena. — Eu sabia que ela tinha te levado para aquele tour na floresta, mas eu decidi ignorar porque achei que ela estava sendo apenas "boa". Mas ouvir essa Talia dizer em voz alta o que a Elena realmente sente... — ele balançou a cabeça, os dentes cerrados. — "Amores épicos". Você realmente pensa isso, não pensa, Elena? Você se deita do meu lado, me aceita mexendo nas suas coisas, mas mantém o Stefan guardado numa caixinha mental para o caso de eu falhar. Nós somos os seus troféus.
— Não! Damon, por favor, não faz isso! — Elena soltou um soluço, virando-se para ele. — Eu amo você! O que eu tive com o Stefan ficou no passado, mas ele é importante...
— Chega, Elena! — Damon rugiot, fazendo-a dar um sobressalto. — Não tenta consertar o que aquela garota acabou de despedaçar com a verdade. Pela primeira vez, a linhagem Petrova teve um surto de honestidade nesta sala, e não foi vindo de você.
No sofá, Katherine assistia a tudo de queixo caído. A máscara de deboche dela havia sumido por um instante, dando lugar a um choque genuíno. Katherine passou a vida inteira com inveja da Elena, odiando-a porque acreditava puramente que a Elena era a "menina perfeita e boazinha" que merecia todo o amor do mundo, enquanto ela era o monstro rejeitado.
Ver a sua própria filha, Talia, arrancar a máscara da Elena daquela forma fez o mundo da Katherine girar. Uma mistura de choque e um alívio bizarro tomou conta dela. Ela olhou para Elena, que chorava copiosamente, e soltou uma risada rouca e fraca por conta do resfriado.
— Olhem só para isso... — Katherine murmurou, os olhos brilhando com uma satisfação sombria. — Eu passei séculos me sentindo o pior ser humano do planeta porque achava que você era uma santa, Elena. Eu achava que os Salvatore te amavam porque você era pura. Mas no final das contas... você é tão manipuladora e egoísta quanto eu. A única diferença é que eu assumo o que eu sou, e você precisa chorar para as pessoas sentirem pena. Que reviravolta deliciosa.
— Cale a boca, Katherine! — Nadia interveio, segurando o braço da mãe, o rosto confuso e magoado. — A Talia atacou você também! Ela disse que você a abandonou para correr mais rápido! Isso é verdade? Você teve outra filha e a largou?
Katherine desviou o olhar de Elena para Nadia, e a diversão sumiu instantaneamente. A culpa pelo passado com a Talia a atingiu em cheio.
— O Klaus teria matado ela, Nadia... — Katherine justificou em um sussurro, parecendo subitamente muito menor e mais frágil no sofá. — Eu fiz o que precisei fazer para que ela vivesse.
— É, pelo menos a Katherine assume as merdas que faz — Damon disparou, caminhando em direção à porta da frente. — Já a nossa duplicata local prefere chorar e fingir que o universo a obriga a brincar com o coração de dois irmãos.
— Damon, onde você vai? — Elena gritou, tentando ir atrás dele.
— Vou atrás da Talia — Damon respondeu sem olhar para trás, abrindo a porta principal. — Quero saber o que mais ela sabe. E, honestamente? A companhia dela parece bem mais sincera do que a sua agora.
Damon saiu, batendo a porta. Elena desabou no chão, cobrindo o rosto com as mãos, e virou-se para o único porto seguro que lhe restava.
— Stefan... por favor...
Stefan olhou para ela. Havia amor naqueles olhos verdes, mas havia também um limite que tinha sido severamente ultrapassado. Ele deu um suspiro profundo, deu as costas para ela e começou a subir as escadas em direção ao seu quarto, deixando Elena completamente sozinha e desmascarada no centro do salão.
Enquanto as lágrimas de Elena molhavam o tapete da mansão, Damon já dirigia em alta velocidade pelas estradas escuras de Mystic Falls. Seus dedos apertavam o volante com tanta força que o couro gemia. As palavras de Talia continuavam ecoando como estilhaços de vidro em sua mente.
Ele parou o carro abruptamente no acostamento perto da praça central. Damon não precisou procurar muito; sua audição de vampiro captou o som de passos calmos caminhando pela calçada de pedra. Talia estava ali, observando as luzes da cidade com os braços cruzados, a jaqueta de couro moldando perfeitamente a silhueta que tanto atormentava os Salvatore.
Damon saiu do carro e, em um piscar de olhos, usou sua velocidade mística para aparecer bem na frente dela, bloqueando seu caminho.
— Você achou mesmo que ia jogar aquela bomba e sair andando como se nada tivesse acontecido, cópia número três? — Damon sibilou, os olhos semicerrados.
Talia nem sequer piscou. Ela apenas parou, olhou para ele de cima a baixo com o deboche clássico, deu um sorriso de canto.
— Eu não joguei uma bomba, Damon. Eu só acendi a luz. Se a verdade destrói o seu conto de fadas, o problema não é a luz, é o que você estava escondendo no escuro — ela respondeu, a voz perfeitamente calma.
— Você não conhece a Elena — Damon deu um passo à frente, tentando manter a postura protetora, embora sua voz vacilasse. — Ela comete erros, sim. Mas ela me escolheu. O que aconteceu com o Stefan está no passado.
Talia soltou uma risada melodiosa, mas cheia de escárnio. Seus olhos brilharam por um segundo com aquela energia mística, conectando-se diretamente com o fluxo de sentimentos que ela havia acabado de ler na mansão.
— Passado? Você realmente é o rei da negação, não é, Damon? — Talia deu um passo na direção dele, forçando-o a encará-la. — Deixa eu te contar uma coisa que a sua preciosa namorada guardou no fundo da mente dela, algo que aconteceu há pouco tempo e que você, na sua imensa burrice, aceitou como "efeito colateral da magia".
Damon travou.
— Do que você está falando?
— As visões. Os universos alternativos que os Viajantes implantaram na mente dela e do Stefan — Talia começou a andar ao redor dele, como se estivesse ditando uma sentença. — Quando a Elena começou a ter aquelas visões de uma vida inteira com o Stefan... casando com ele, tendo filhos, envelhecendo juntos... qual seria a reação de uma mulher que está verdadeiramente apaixonada por você? Ela acordaria assustada. Ela veria aquilo como um pesadelo, uma intrusão, algo ruim que ameaçava o relacionamento atual dela. Qualquer ex-namorada normal e fiel faria isso.
Damon engoliu em seco. Ele se lembrava daquela época. Lembrava do incômodo que sentira.
— Mas a Elena não — Talia continuou, o tom destilando veneno puríssimo. — Ela não tratou aquilo como um pesadelo. Ela ficou se alimentando daquilo. Ela guardou cada detalhe romântico na memória e fez questão de sentar com o Stefan para reviver tudo em voz alta. Ela olhou nos olhos do seu irmão e disse, com todas as letras, que aquelas visões eram *tudo o que eles sempre quiseram*. Ela disse isso para o ex enquanto estava deitada na sua cama, Damon!
O peito de Damon subiu e desceu dramaticamente. Aquilo doía mais do que uma estaca de carvalho. Ele se lembrava de Elena justificando que "era apenas a magia do universo agindo", mas ouvir a interpretação nua e crua de Talia fazia tudo parecer uma traição escancarada.
— E sabe por que ela faz isso? — Talia sussurrou perto do ouvido dele. — Porque ela tem ciúmes. Ela morre de ciúmes do Stefan com a Rebekah, com a Tessa, com a Katherine... se o Stefan respira perto de outra mulher, o ego da Elena sangra. Ela não quer o Stefan para ela, mas ela não suporta a ideia de que ele pertença a outra pessoa. Ela quer ser o troféu de ouro dele para sempre.
Damon deu um passo para trás, o rosto transtornado pela dor e pela raiva.
— E tem mais — Talia completou, cruzando os braços novamente, limpando a garganta enquanto sentia a leve tontura de sua magia agindo. — Lembra daquele tour na floresta com o Stefan sem memória que a gente conversou na mansão? Sabe o que a sua "santa" disse para o Stefan enquanto jogava charme para ele entre as árvores? Ela olhou para o cara que nem lembrava o próprio nome e disse que ele foi o namorado perfeito, porque ele sempre respeitava tudo o que ela queria. Ela jogou na cara dele — e indiretamente na sua — que você é o problemático, o errado, enquanto o Stefan é o ideal de perfeição que ela lamenta ter perdido.
Ela deu um passo à frente, forçando Damon a encarar a realidade que ele tentou enterrar.
— Você se lembra, Damon? Lembra quando ela olhou para você e disse, com a maior naturalidade do mundo: “Vou conhecer a mulher que deu à luz aos dois amores épicos da minha vida: eu!”?
Talia deu uma risada seca, sem humor, enquanto seus olhos fixavam os dele com uma certeza implacável.
— Você estava tão cego pelo brilho do pedestal dela que nem percebeu a crueldade escondida atrás desse sorriso? Ela não estava escolhendo um lado, Damon. Ela não estava em conflito. Ela estava apenas colecionando ambos. Para ela, vocês dois nunca foram pessoas; foram apenas as duas peças mais valiosas da coleção que ela se recusou a descartar.
Damon ficou em silêncio. Não havia piadas, não havia ameaças. Ele apenas virou as costas, entrou no carro sem dizer uma única palavra e arrancou, deixando Talia para trás na noite escura.
Enquanto isso, de volta à mansão, o andar de cima estava mergulhado em uma calmaria sepulcral. No quarto de Stefan, o jovem Salvatore estava sentado na beira da cama, com as mãos no rosto.
A porta se abriu devagar. Elena entrou, com os olhos vermelhos e inchados, a voz trêmula.
— Stefan... por favor, fala comigo. Você não pode acreditar naquela garota. Ela tem o sangue da Katherine, ela quer nos destruir...
Stefan tirou as mãos do rosto e olhou para ela. Não havia raiva em seus olhos verdes, apenas uma profunda e dolorosa clareza.
— A Talia não nos destruiu, Elena. Ela só leu a sua mente — Stefan disse, a voz baixa. — E o pior é que eu sempre soube disso, mas eu estava cego demais para admitir. Quando você me contou sobre os sonhos do nosso casamento... você parecia tão nostálgica. Você não parecia a namorada do meu irmão me contando sobre um feitiço ruim. Você parecia a Elena de dois anos atrás, lamentando o que a gente perdeu.
— Stefan, aquilo foi a magia dos Viajantes! — Elena deu um passo à frente, estendendo as mãos.
— Não, Elena. A magia criou os cenários, mas a forma como você reagiu a eles foi puramente sua — Stefan se levantou, mantendo a distância. — E na floresta... quando eu estava sem memória... você me disse que eu era o namorado perfeito porque respeitava tudo o que você queria. Você percebe o peso disso? Você está com o Damon, mas continua me usando como o seu padrão de homem ideal. Você me elogia pelas costas dele, e usa o amor dele para se sentir desejada.
Elena abriu a boca para rebater, mas nenhum som saiu. As defesas dela haviam caído por completo. Pela primeira vez, ela não conseguia chorar para fazer o mundo esquecer seus erros.
Nesse momento, o som do carro de Damon freando bruscamente no jardim ecoou na casa. Segundos depois, os passos pesados dele subiram as escadas. Damon apareceu na porta do quarto de Stefan. Ele olhou para Elena, depois para o irmão.
— Acabou, Elena — Damon disse, a voz fria, desprovida de qualquer emoção. — Eu acabei de falar com a Talia. Ela me lembrou de coisas que eu passei meses tentando romantizar na minha cabeça. Os sonhos com o casamento, o seu ciúme doentio toda vez que o Stefan olha para outra mulher, as suas falas na floresta...
— Damon... — Elena soltou um ganido de dor.
— Não. Chega — Damon a cortou, apontando para a porta. — Você passou anos fazendo a gente escolher entre você e o nosso laço de irmãos. Mas a filha da Katherine acabou de me dar o melhor conselho que eu já recebi na vida. Eu não vou ser o seu segundo amor épico, e o Stefan não vai ser o seu estepe perfeito. Recolhe as suas lágrimas e sai da nossa casa.
Stefan olhou para o irmão, e depois de séculos de brigas e desavenças por causa de duplicatas, os dois irmãos finalmente trocaram um olhar de absoluta cumplicidade. Stefan assentiu levemente para Damon, concordando com cada palavra.
Elena olhou de um para o outro, percebendo que, pela primeira vez na vida, o feitiço da "santa Gilbert" havia quebrado. Ela não era mais o centro do universo. Ela era apenas uma garota sonsa, colhendo o fruto de anos de manipulação, completamente sozinha no corredor escuro dos Salvatore.
Registro finalizado.
Arquivo: Ecos de Duplicatas
Local: Mystic Falls
— O Cronista.

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